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Sab, Mai

A igreja é um património mas também a igreja tem que ser funcional para a liturgia e não tem que ser um museu estático.

Entrevistas
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Com 460 anos de vida, de história e de missão a paróquia, Nossa Senhora da Graça, cuja Igreja Matriz é a Catedral da Diocese de Santiago, é uma das mais antigas paróquias de Cabo Verde. Sem perder o seu vigor, pode “orgulhar-se” de ser a paróquia-mãe das outras que com o tempo nasceram e servem hoje a cada vez mais complexa cidade da Praia. Ao Terra Nova o padre António Ferreira, ou padre Ima, como é conhecido, actual pároco de Nossa Senhora da Graça, re-percorre o percurso dessa paróquia e aponta para o futuro com confiança. Confira! 

por Frei Gilson Frede

A Paróquia Nossa Senhora da Graça comemora este ano 460 anos. Como foi e como tem sido as comemorações?

Para as comemorações criou-se uma equipa já no ano passado o início do ano pastoral em que fez-se um program e um cronograma de realizares onde quisemos enquadrar o program no ritmo da paróquia. Já havia já na paróquia as Conferencias Quaresmais, então quisemos dar um tom às Conferencias Quaresmais nesta perspectiva dos 460 anos. A segunda centralidade foi os 40 anos de episcopado do Sr. Dom Paulino também coincidindo com a Independência e ver toda a ligação da paróquia nesses 40 anos. Depois tínhamos também a visita do Papa João Paulo II a Cabo Verde que esteve na Catedral a celebrar, com uma exposição que fizemos e a centralidade de Julho e Agosto foi a festa de Nossa Senhora da Graça que foi o “centro” da festa. Fizemos com que em cada comunidade se vivesse a festa da padroeira. Com as várias festas nas comunidades notamos que a festa da padroeira fica um pouco arrefecida. Tivemos uma outra centralidade que foi a formação de verão em que esteve connosco o professor Eduardo Duque para formar os líderes sobre a Doutrina Social da Igreja e como chegar aos casos especiais hoje da evangelização. Temos para concluir estas celebrações a questão da paz. Aproveitamos o mês de Outubro que é aniversário de São João Paulo II e fazer uma reflexão sobre a paz, isto é ver elementos que nós temos na nossa vida para construirmos a paz sem falar da guerra aproveitando da encíclica do Papa Francisco sobre a ecologia humana. Será um ponto de chegada e de partida para o programa da paróquia a partir daquilo que sairá da Diocese e enquadrado no ano da Misericórdia e Maria, mãe da misericórdia.  

Hoje Praia tem seis paróquias. Que implicações estas novas paróquias tem na pastoral da cidade?

É um desafio sério. Mesmo nós, os párocos da cidade, sentimos isto e temos reflectido nos nossos encontros de Santiago Sul que engloba não só as paróquias da cidade mas também Nossa Senhora da Luz do Maio, São Nicolau Tolentino e Nossa Senhora da Luz, Santíssimo Nome de Jesus e São João Baptista. Mas nos nossos encontros temos concentrados nos desafios da cidade. Procurámos elencar os grandes desafios e eram tantos e em cada tentamos debatemos um. Depois é sobretudo ter uma pastoral de conjunto para não desorientar as pessoas porque apesar de termos seis paróquias as pessoas continuam ainda com uma ligação afectiva á Nossa Senhora da Graça e isto tem implicações a nível dos baptismos, dos casamentos… Querem fazer tudo na Nossa Senhora da Graça mas há todo os aspecto jurídico e canónico que deve passar pelas paróquias e, portanto é um desafio para nós os párocos da cidade termos atenção a isto. Um outro desafio seria rever o conceito de paróquia que nós temos. Da paróquia territorial ao novo conceito de paróquia que tem território. É uma perspectiva que ainda não entrou tanto na nossa reflexão. 

Portanto, esta multiplicidade de paróquias criou alguma fragmentação ou nem por isso? 

Eu que sou da Praia, única paróquia, e depois Praia com muitas paróquias vejo que há vivacidade. Em cada paróquia há vida. Mais pessoas que participam, que estão empenhados, os moviementos que se estivessemos concentrados numa única paróquia seria difícil. Estas paróquias é o culminar de uma opção pastoral que se fez no final do anos 70 com as comunidades, ir às zonas trabalhar e as zonas foram ganhando consciência. Agora o desafio não é dividir para reinar mas tomar a paróquia como comunhão orgânica e dinâmica de pequenas comunidades. Atrapalha, sim, porque as pessoas tem na cabeça a paróquia de Nossa Senhora da Graça para as confissões, para os baptismo e é preciso reenviar as pessoas às suas paróquias de origem. Mesmo, por exemplo, a questão da capelania do Hospital. Nós estamos aqui perto e uma pessoa vem pedir padre para um doente, como que eu vou lhe mandar-lhe chamar o capelão que vive mais longe? As pessoas não entendem isso. É um trabalho que temos que fazer na socialização desta nova realidade. 

Então a paróquia de Nossa Senhora da Graça não perdeu a sua centralidade?

Eu estou a fazer de pároco e falando pode ser vaidade da minha parte mas creio que cada um que observa de fora vê que Nossa Senhora da Graça é da Praia e as pessoas sentem-na não só no aspecto burocrático mas sentimental também. As pessoas para as missas de aniversários, de casamentos e de outros momentos mais sentimentais vem à paróquia de Nossa Senhora da Graça.   

Com 460 anos de vida é uma das paróquias mais antigas de Cabo Verde, quais são as outras mais antigas?

Nós em 1570, segundo o livro de padre Frederico Cerrone, tínhamos já nove paróquias na ilha de Santiago e entre elas está a paróquia de Nossa Senhora da Graça. Mais tarde aparece a paróquia do Santíssimo São Salvador do Mundo que foi criada em 1705. Todas estas paróquias já existiam antes. As Paróquias de Santiago são, portanto dessas alturas. Nós tivemos a sorte porque encontramos a documentação. Mas penso, por exemplo, que a paróquia de Nossa Senhora da Luz, São Domingos nesta altura já existiam. 

A igreja paroquial de Nossa Senhora da Graça é também Pró-catedral. É uma mais valia ou atrapalha a actividade pastoral? 

Volto sempre àquilo que é a minha experiência. Vive sempre isto como Catedral ou Pró-catedral e nunca atrapalhou quando ainda não fazia parte da hierarquia. Temos a “vaidade” de ter os pontificais, de ter as grandes celebrações, os grande momentos da Igreja em que todos os fiéis devem estar com o bispo e à volta dele. Assim, nesse sentido ela é a casa-mãe e para nós é uma “vaidade” espiritual termos a casa-mãe. Não atrapalha porque com a nova configuração das comunidades a vida vai-se fazendo e no momento em que todos estão, nós também estamos. Temos procurado também dar a dimensão de Pró-catedral como na quinta feira santa o coral paroquial de Nossa Senhora do Socorro vem cantar, tentamos fazer vir todos os acólitos, nesse dia chamamos mesmo os formandos dos e os seminaristas para dar esta ideia de que na Igreja diocesana há lugar para toda a gente. 

Chama-se Pró-cadetral. Porque não definitivamente catedral?

Porque a catedral ainda está na Cidade Velha em ruínas. Os bispos de Cabo Verde andaram de cá para lá: no Fogo, na Brava, na Boavista, em Santo Antão e ultimamente e de forma estável em São Nicolau. Sempre a igreja onde está o bispo funciona de Catedral. Mas não há um decreto a transferir a igreja. Esta nossa igreja foi a partir de junho de 1943, quando Dom Faustino veio a Praia por indicações da Santa Sé porque na Praia está a sede administrativa, o bispo precisava de uma igreja para a sua sede e a que estava mais ao pé para pôr a sede, a cátedra dele era a de Nossa Senhora da Graça. Ele trouxera o trono de São Nicolau e colocou-o na Praia. 

O Papa João Paulo II quando veio a Cabo Verde não fala de pró-catedral mas sim de catedral e nós podemos tomar isso tacitamente que o Papa deu esta tal dignidade de catedral. 

A catedral desde 1983 lançou-se a primeira pedra mas nunca mais se falou e não sei se a pedra ainda está à vista. 

A paróquia assinou recentemente um protocolo com a Câmara Municipal da Praia. Em que consiste este protocolo?

 A primeira motivação, sendo a Câmara Municipal uma instituição e a paróquia uma instituição no terreno, tenho tido alguns encontros de visita e de troca de trabalho com o presidente da Câmara, então achou-se conviniente as duas instituições, para não ficarem dependentes de quem está à frente, termos um instrumento para podermos trabalhar. Então nos nossos encontros de partilha elencámos a área social. A paróquia, através da Caritas, tem trabalhado imensamente e muitas vezes com parcos recursos. A Câmara também tem trabalhado através do pelouro para o social e muitas vezes a Câmara quando vai ajudar uma pessoa, ajuda na totalidade, mas a Igreja exige sempre a comparticipação e vimos que poderia ser mais benéfico, mais útil e ajudaríamos mais pessoas se nós nos juntarmos nesta perspectiva, salvaguardando a privacidade das famílias que vão ser ajudadas. Muitas vezes há recursos que a Câmara tem e a paróquia não tem e nós podemos encaminhar, trocar instrumentos de trabalho. Outra área é a das infraestruturas. A paróquia precisa neste momento de muitas infraestruturas porque nós estamos a usar as escolas e, muitas vezes, têm havido constrangimento apesar de da parte do Ministério ter havido indicações para não impedir, mas no terreno alguns gestores ou algum professor ou outro por motivos religiosos ou outros fazem uma certa resistência. Então queremos ter o nosso espaço para os nossos trabalhos. Para isto precisamos de terrenos, infraestruturas, todo o apoio técnico que a Câmara tem. A Igreja se trabalha para uma causa social, então conta com os apoios. Também temos obras para requalificar e reabilitar e nada melhor fazê-lo com os técnicos da área porque sou padre e não percebo de muita coisa e muitos colaboradores da paróquia não entendem de muita coisa, então esta parceria facilita. Outra área é a da juventude. Um problema sério aqui na nossa cidade que toca a nossa paróquia concretamente e precisamos de tanta coisa para fazermos juntos e ocuparmos os jovens. 

Falou-se também no restauro da igreja paroquial. Já consultaram o Instituto do Património Cultural? 

Por acaso já tive um primeiro encontro, não sei se forma ou informal, com o presidente do IPC onde disse-lhe a ideia e a intenção. Também com o presidente da Câmara falamos informalmente. Agora precisamos formalizar com uma carta para a três, a paróquia, a Câmara e o IPC, primeiro fazermos um estudo in loco, para ver o estado da igreja e depois o programa que temos que fazer na igreja e depois o financiamento. A igreja é um património, isto não questionamos, mas também  a igreja tem que ser funcional para a liturgia e não tem que ser um museu estático para a gente contemplar porque a igreja foi feita, respeitando aquilo que é a visita e admiração da arte sacra, para a celebração. Vejo que na nossa igreja não haverá tanto alarido porque o problema que temos é da ventilação, iluminação e sonorização para podermos ter a contemplação e partir para a acção. 

Portanto não é uma intervenção profunda?

Não. Não alterará nada e seria mais conservar. É o telhado porque muitas partes estão a chover porque a igreja é de 1902 e ao longo desses anos houve uma intervenção na década de 50, depois na década de 70 e depois na década de 90 mas agora no tecto só houve intervenção na nave central mas lá em cima está cheio de terra e é preciso rever todo o telhado. Isso mexe com a igreja. 

Fala-se da sustentabilidade das paróquias, como é a paróquia de Nossa Senhora da Graça se sustenta?

É uma paróquia que se sustenta pela própria tradição dos fiéis e pela ligação que têm à sua paróquia e por aquilo que a própria paróquia vem fazendo ao longo desses anos, recentemente com os polos pastorais, este centro paroquial. As pessoas sabem que as coisas que dão à paroquia aparecem: os polos pastorais, o centro paroquial. Dá para ver que os investimentos foram feitos. Podemos dizer que esta é uma paróquia auto-sustentável e damos graças a Deus. Também tem um conselho económico nomeado com a provisão do sr. Bispo feita de gente que entende da matéria, tem toda a parte contalística composta por pessoas capazes e que vão controlando as coisas. 

É pároco recente aqui em Nossa Senhora da Graça, mas já o foi noutras paróquias inclusive na Diocese de Mindelo. Como é ser pároco da paróquia mais importante da diocese? 

Não penso que seja a mais importante porque onde estão os filhos de Deus é importante. Agora tem este facto de estar na Praia mas eu não sinto isto como importância porque eu não vim à Praia, uma pessoa que viesse à Praia poderia sentir que é a mais importante. Eu sou da Praia. Ás vezes sinto a tentação em repôr as coisas que vive em criança mas vejo a diferença agora de estar na Praia por exemplo a nível dos meios materiais. O Papa diz que não são os meios que fazem a pastoral mas os meios são importantes, depois a disponibilidade de leigos, já com outra formação, com outra destreza, a facilidade de ter colegas padre para falar, partilhar, colaborar na pastoral, poder contar com todas as congregações religiosas. Tudo isto enriquece a Praia. O desafio de quem está na Praia é evitar que esta riqueza não venha a ser uma pobreza, não venha atrapalhar mas integrar-se para que a partir da Praia tentar dar também sinais de coisas bonitas. 

 

Tem fama de ser um grande comunicador com os jovens. Tem conseguido comunicar-se com os jovens aqui na Praia? 

Dizem que eu sou comunicador mas não sei se sou. Eu vou dizendo as coisas. Certo que não tenho tido dificuldades de falar porque eu para na rua e falo com os jovens. Eu, às vezes, digo, para além de fazer de padre tenho que fazer o meu apostolado como cristão.                                

 

Como é que considera a actual situação social dos jovens na Praia? 

Nós temos aquilo que todos nós sabemos. A questão é do desemprego e da desocupação. Os jovens não estando ocupado, não tendo uma orientação se juntam nas ruas para se divertirem, para falarem e depois saem muitas coisas que podem ser boas ou más. Penso que em todos os bairros temos tantos jovens que estão desocupados por vários motivos. Mas a desocupação não significa também criar grupos de delinquentes ou andar em drogas e álcool. O desafio será que todos nós que temos autoridade aproximarmos desses grupos, dos bairros como fez Jesus. Esta aproximação faz revolução. Porquê São Francisco cativa ainda o mundo? É pelos loucuras que ele faz: sai do centro, das coisas direitas, das etiquetas e vai e consegue cativar. Nós também que temos autoridade, que nos deram autoridade, precisamos tirar o fato, as nossas vestimentas e estarmos no quotidiano e é o estilo do nosso Papa Francisco. É esta santa loucura franciscana que nós precisávamos aqui com os jovens.

A paróquia tem ou pensa criar algum serviço de apoio nos bairros mais periféricos e mais problemáticos?

Tenho por mim que não temos que estar a criar coisas por criar mas é saber o que existe na paróquia e potenciar e dar novos serviços. Por exemplo nós temos a Caritas paroquia que é termos de ajudas e serviços podemos potenciar mais, temos a pastoral juvenil que não devem ser grupos fechados que devem ir aos bairros organizarem momentos de oração, de convívio, caminhadas, etc. Nós tivemos agora no verão uma experiência muito engraçado aqui em casa. Compramos um programa informático da paróquia e trouxemos aqui cerca de 30 jovens lançando os dados. Vinham de manhã às oito, lançavam os dados no sistema, ao meio dia almoçávamos  e no final do mês demos uma gratificação. No início passavam todo o dia no Facebook, então bloqueámos o Facebook e começamos a pagar por lançamentos e deu mais resultado. Também em Achada Grande Trás fez-se uma experiência de ocupação de tempo, sobretudo com com os adolescentes. Temos que utilizar o que temos e virados para estes problemas. 

A partir de Dezembro começará o Jubileu da Misericórdia. Como é que a paróquia pensa viver este importante tempo?

Naquele grupo C12 em que reflectimos um pouco sobre as coisas teóricas, pensamos estando na paróquia de Nossa Senhora da Graça, devemos aproveitar o título de Maria, Mãe da Divina Misericórdia. Então temos algumas acções programadas mas como falta ainda apresentá-las ao Conselho Paroquial e porque a nível da diocese haverá uma reunião nos meados de setembro vamos esperar para publicá-las.